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Mentiras da famíliaBolsonaro — página inicial

Meio ambienteÁgua e segurança hídrica

Programa Água Doce foi lançado em 2004, no governo Lula; Bolsonaro deu continuidade, mas não o criou

A alegação

“Bolsonaro criou o Programa Água Doce.”

Publicações em redes sociais, Apoiadores do ex-presidente; sem autoria documentada de membro da família Bolsonaro ·

A frase “Criou o programa Água Doce” é o item 11 de uma lista de “42 realizações” do governo Bolsonaro publicada no Instagram pelo influenciador Pablo Marçal em 7 de outubro de 2026. Segundo a Agência Lupa, o perfil de Flávio Bolsonaro curtiu a publicação.

Nosso veredito

Veredito: FALSO

Documentos oficiais mostram que o Programa Água Doce foi formulado em 2003 e lançado em 2004 pelo Ministério do Meio Ambiente, no primeiro governo Lula, como sucessor de uma iniciativa de 1996, o Programa Água Boa. No governo Bolsonaro, o programa passou ao Ministério do Desenvolvimento Regional, ganhou uma “segunda fase” em 2020 e teve novas entregas: continuidade de uma política que já tinha 15 anos.

O que significa “falso”?

Por RedaçãoPublicado em 4 min de leitura

Vista aérea de área rural no semiárido baiano com casas esparsas e cisternas circulares brancas
Cisternas em comunidade rural de Teofilândia (BA), no semiárido, em 2014. As estruturas da foto são de outro programa federal (Água para Todos); não há foto com licença livre de um dessalinizador do Programa Água Doce.Imagem: Sergio Amaral/MDS · CC BY-SA 2.0 · fonte da imagem

Resumo dos fatos

É verdade

  • O governo Bolsonaro manteve o programa: iniciou uma “segunda fase” em 2020, com novos planos estaduais e licitação para sistemas em nove estados, e fez entregas, algumas com a presença do presidente.

Não é verdade

  • O Programa Água Doce foi concebido em 2003 e lançado em 2004 pelo Ministério do Meio Ambiente, no primeiro governo Lula, 15 anos antes da posse de Bolsonaro.

Falta contexto

  • O programa sucedeu o Programa Água Boa, de 1996, e passou a integrar o Água para Todos em 2011. Em dezembro de 2018, antes da posse de Bolsonaro, já somava 482 obras concluídas, segundo o Ministério do Meio Ambiente.
  • Em agosto de 2021, 617 dos 895 sistemas em operação haviam entrado em funcionamento antes de 2019, segundo a coluna Painel, da Folha de S.Paulo.

O que está sendo afirmado

Uma lista de “42 realizações” do governo Jair Bolsonaro (2019-2022), publicada no Instagram pelo influenciador Pablo Marçal em 7 de outubro de 2026, afirma no item 11 que Bolsonaro “criou o programa Água Doce”. Segundo a Agência Lupa, a publicação acumulava 529 mil curtidas e foi curtida pelo perfil do senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência. Não há registro de que ele ou outro membro da família tenha escrito a frase.

O Programa Água Doce instala sistemas de dessalinização em comunidades rurais do Semiárido. Os equipamentos transformam em água potável a água salobra de poços, muitas vezes a única fonte disponível nessas localidades.

O que mostram os documentos

Concebido em 2003 e lançado em 2004

O Documento Base do programa, publicado pelo Ministério do Meio Ambiente em 2012, conta a história. Em 1996, a Secretaria de Recursos Hídricos do ministério implantou o Programa Água Boa, que instalava dessalinizadores, mas sem cuidar do destino dos rejeitos salinos nem da manutenção; parte dos equipamentos acabou desativada.

A partir de 2003, o governo decidiu reformular a política. Segundo o documento, o Programa Água Doce “foi concebido e elaborado de forma participativa durante o ano de 2003” e lançado em Brasília em 2004, em março daquele ano, de acordo com outro trecho. Em 6 de dezembro de 2004, o ministério firmou com 28 instituições o Pacto Nacional para Implementação do programa, em cerimônia com a então ministra Marina Silva.

Outros registros oficiais confirmam a data. Em 2011, o Inema, órgão ambiental do governo da Bahia, descrevia o programa como ação federal coordenada pelo Ministério do Meio Ambiente e lançada em 2004. Em 2024, o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional informou que o programa foi lançado em 2004, no primeiro mandato de Lula. A página oficial atual diz que coube “à época” ao Ministério do Meio Ambiente estruturar a metodologia e que, a partir de 2011, o programa entrou em fase de escala ao integrar o Programa Água para Todos.

O que o governo Bolsonaro fez

Quando Bolsonaro tomou posse, o programa já tinha 15 anos. Em dezembro de 2018, ainda como presidente eleito, ele anunciou a dessalinização como solução para a seca no Nordeste, com Israel como referência, e chamou a tecnologia de “inédita”. Na época, segundo o Ministério do Meio Ambiente, o Água Doce já somava 482 obras concluídas em 170 municípios do Semiárido, noticiou o Monitor Mercantil.

Com a reorganização dos ministérios em janeiro de 2019, as políticas de recursos hídricos e de segurança hídrica passaram ao recém-criado Ministério do Desenvolvimento Regional (Decreto nº 9.666/2019), que assumiu a execução do programa. Segundo a página do programa, uma “segunda fase” começou em 2020, com a atualização dos planos estaduais para 2020-2029. Em dezembro daquele ano, foi concluída a licitação para instalar sistemas em nove estados.

Houve entregas no período. Em agosto de 2020, Bolsonaro entregou 23 sistemas do programa em Ipanguaçu (RN), segundo o Agora RN. Em julho de 2022, participou da assinatura de ordem de serviço para 29 sistemas na Bahia; o ministério informou na ocasião que havia 910 sistemas em operação no Semiárido (comunicado do MDR).

Os números ajudam a dimensionar o que já existia. Em agosto de 2021, segundo a coluna Painel, da Folha de S.Paulo, havia 895 sistemas em operação em sete estados, dos quais 617 tinham entrado em funcionamento antes do governo Bolsonaro. A mesma coluna informou que o investimento no programa foi de R$ 13,5 milhões em 2019 e de R$ 18,9 milhões em 2020, cerca de 1% do investimento federal em recursos hídricos, patamar semelhante ao de governos anteriores. O ministério afirmou, então, que o programa tem “execução continuada”.

Não localizamos um balanço oficial consolidado com o total de sistemas entregues entre 2019 e 2022.

Cronologia

  • 1996 — Ministério do Meio Ambiente implanta o Programa Água Boa, antecessor do Água Doce.
  • 2003 — Programa Água Doce é formulado com órgãos federais, estaduais e universidades.
  • Março de 2004 — Lançamento do programa em Brasília, no primeiro governo Lula.
  • 6 de dezembro de 2004 — Ministério do Meio Ambiente firma o Pacto Nacional para Implementação do programa com 28 instituições.
  • 26 de julho de 2011 — Programa passa a integrar o Água para Todos e entra em fase de escala.
  • Dezembro de 2018 — Presidente eleito, Bolsonaro chama a dessalinização de “inédita”; o programa já tinha 482 obras concluídas.
  • 2 de janeiro de 2019 — Recursos hídricos passam ao Ministério do Desenvolvimento Regional.
  • 2020 — Início da “segunda fase”, com novos planos estaduais e licitação em nove estados.
  • Agosto de 2021 — 617 dos 895 sistemas em operação são anteriores a 2019.
  • Abril de 2024 — Governo Lula anuncia o milésimo sistema do programa.
  • 7 de outubro de 2026 — Lista viral atribui a criação do programa a Bolsonaro.

Por que o veredito é FALSO

A alegação diz que Bolsonaro criou o Programa Água Doce. Documentos oficiais registram que o programa foi concebido em 2003 e lançado em 2004, no Ministério do Meio Ambiente, 15 anos antes da posse de Bolsonaro, e que sucedeu uma iniciativa ainda mais antiga, de 1996.

O governo Bolsonaro manteve o programa, abriu uma nova fase e entregou sistemas. Dar continuidade a uma política pública, porém, não é o mesmo que criá-la.

Fontes (10)

Todas as fontes foram abertas e lidas pela redação. Links externos abrem o documento original.

  1. Fonte primáriaMinistério do Meio Ambiente — Secretaria de Recursos Hídricos e Ambiente Urbano (arquivo hospedado no site do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional)
    Programa Água Doce — Documento Base (2012) (abre em nova aba)

    Acessado em

    • O Programa Água Doce foi concebido em 2003 e lançado em 2004 (em março de 2004, segundo o documento), em Brasília, sob coordenação do Ministério do Meio Ambiente.
    • Antes dele, em 1996, o Ministério do Meio Ambiente havia implantado o Programa Água Boa, que instalava dessalinizadores sem cuidados com os rejeitos e com a manutenção.
    • Em 6 de dezembro de 2004, o Ministério do Meio Ambiente firmou com 28 instituições o Pacto Nacional para Implementação do programa; a cerimônia contou com a ministra Marina Silva.
    • Até 2012, o programa havia implantado 150 sistemas de dessalinização.
  2. Fonte primáriaMinistério da Integração e do Desenvolvimento Regional — gov.br
    Programa Água Doce (abre em nova aba)

    Publicado em · Acessado em

    • Coube ao Ministério do Meio Ambiente estruturar a metodologia do programa, criado porque dessalinizadores instalados desde a década de 1990 deixavam de funcionar.
    • A partir de 2011, o programa entrou em fase de escala e passou a integrar o Programa Água Para Todos (Decreto nº 7.535/2011).
    • A segunda fase do programa começou em 2020, com a atualização dos planos estaduais para 2020-2029, e em dezembro de 2020 foi concluída licitação para implantação de sistemas em nove estados.
  3. Fonte primáriaInstituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) — Governo da Bahia
    Água Doce | Inema - Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (abre em nova aba)

    Publicado em · Acessado em

    • Em 2011, o órgão ambiental da Bahia já descrevia o Programa Água Doce como ação do governo federal coordenada pelo Ministério do Meio Ambiente, lançada em 2004.
  4. OutraBrasil 61 (conteúdo do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional)
    Cidadania e dignidade contemplam mais de 250 mil pessoas (abre em nova aba)

    Publicado em · Acessado em

    • Segundo o MIDR, o Programa Água Doce foi lançado em 2004, no primeiro mandato de Lula, e chegou ao milésimo sistema de dessalinização em abril de 2024.
  5. Fonte primáriaPresidência da República — Planalto
    Decreto nº 9.666, de 2 de janeiro de 2019 — Aprova a Estrutura Regimental do Ministério do Desenvolvimento Regional (abre em nova aba)

    Publicado em · Acessado em

    • Na reorganização ministerial de janeiro de 2019, as políticas nacionais de recursos hídricos e de segurança hídrica passaram à competência do recém-criado Ministério do Desenvolvimento Regional, com uma Secretaria Nacional de Segurança Hídrica.
  6. JornalismoMonitor Mercantil
    Novidade de Bolsonaro para a seca já existe desde 2004 (abre em nova aba)

    Publicado em · Acessado em

    • Em dezembro de 2018, como presidente eleito, Bolsonaro anunciou a dessalinização como solução para a seca no Nordeste e a classificou como "inédita".
    • Na época, segundo o Ministério do Meio Ambiente, o Programa Água Doce já tinha 482 obras concluídas em 170 municípios do Semiárido.
  7. JornalismoTribuna Online (reprodução da coluna Painel, Folha de S.Paulo)
    No papel (coluna Painel, da Folha de S.Paulo) (abre em nova aba)

    Publicado em · Acessado em

    • Em agosto de 2021, havia 895 sistemas do Programa Água Doce em operação em sete estados, dos quais 617 entraram em operação antes do governo Bolsonaro.
    • O investimento no programa foi de R$ 13,5 milhões em 2019 e R$ 18,9 milhões em 2020, cerca de 1% do investimento federal em recursos hídricos, patamar semelhante ao de governos anteriores.
    • O Ministério do Desenvolvimento Regional afirmou que o programa tem execução continuada.
  8. JornalismoAgora RN
    Bolsonaro entrega títulos de terra, dessalinizadores e anuncia apoio à carcinicultura em Ipanguaçu; veja (abre em nova aba)

    Publicado em · Acessado em

    • Em 21 de agosto de 2020, Bolsonaro entregou em Ipanguaçu (RN) 23 sistemas dessalinizadores do Programa Água Doce, executados pelo Ministério do Desenvolvimento Regional.
  9. OutraBrasil 61 (conteúdo do Ministério do Desenvolvimento Regional)
    Governo Federal autoriza implantação de 29 sistemas de dessalinização na Bahia (abre em nova aba)

    Publicado em · Acessado em

    • Em 1º de julho de 2022, com a presença de Bolsonaro, o MDR assinou ordem de serviço de R$ 9,9 milhões para 29 sistemas de dessalinização na Bahia.
    • Segundo o MDR, havia então 910 sistemas de dessalinização em operação no Semiárido.
  10. JornalismoAgência Lupa
    Lista viral de '42 realizações de Bolsonaro' inclui obras de outros governos e nome de rodovia que não existe (abre em nova aba)

    Publicado em · Acessado em

    • A frase "Criou o programa Água Doce" é o item 11 de uma lista de 42 supostos feitos do governo Bolsonaro publicada no Instagram pelo influenciador Pablo Marçal em 7 de outubro.
    • O perfil de Flávio Bolsonaro curtiu a publicação, segundo a Lupa.
    • A Lupa classificou o item como falso: o programa foi criado em 2004, no primeiro governo Lula; em 2020 passou por nova fase.

Como checamos

Lemos o Documento Base do Programa Água Doce (Ministério do Meio Ambiente, 2012), hoje hospedado no site do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, e a página oficial atual do programa. Cruzamos a data de lançamento com registros do governo da Bahia (2011) e do MIDR (2024). Para o período 2019-2022, consultamos o decreto de estrutura do Ministério do Desenvolvimento Regional, comunicados do ministério e reportagens sobre entregas e investimentos. Procuramos falas de Jair, Flávio, Eduardo, Carlos, Michelle e Renan Bolsonaro atribuindo a criação do programa ao governo Bolsonaro e não encontramos registro.

Limitações

Não localizamos um balanço oficial consolidado de sistemas entregues entre 2019 e 2022; os números citados são de datas e recortes diferentes (sistemas em operação, não necessariamente implantados no período). A coluna Painel foi lida em reprodução da Tribuna Online. Não acessamos a publicação de Pablo Marçal; data e alcance são os informados pela Agência Lupa.

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Histórico desta checagem

  1. Publicação

    Versão original publicada após revisão editorial.

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