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Mentiras da famíliaBolsonaro — página inicial

Segurança públicaDados

Taxa de homicídios caiu cerca de 20% entre 2018 e 2022, não 40%, e a queda começou antes de Bolsonaro

A alegação

“Bolsonaro reduziu 40% da taxa de homicídios no Brasil.”

Publicações em redes sociais, Lista viral publicada pelo influenciador Pablo Marçal ·

A frase “Reduziu 40% da taxa de homicídios no Brasil” é o item 42 de uma lista de “42 realizações” do governo Bolsonaro publicada por Pablo Marçal no Instagram em 7 de outubro de 2026. Segundo a Agência Lupa, o perfil de Flávio Bolsonaro curtiu a publicação. Não foi encontrado registro de membro da família Bolsonaro citando o número de 40%.

Nosso veredito

Veredito: FALSO

É falso. Nas duas principais séries nacionais, a taxa de homicídios caiu entre 18,6% e 21,6% de 2018, último ano antes da posse, a 2022, último ano do mandato — cerca de metade do alegado. A queda começou em 2018 e se concentrou em 2019; de 2019 a 2022, a taxa ficou praticamente estável. Nenhum recorte do período chega a 40%.

O que significa “falso”?

Por RedaçãoPublicado em 5 min de leitura

Gráfico de linhas: a taxa de homicídios caiu de 28,2 por 100 mil em 2018 para 22,1 em 2022; uma queda de 40% exigiria 16,9
Taxa de homicídios por 100 mil habitantes, de 2014 a 2025, segundo o Atlas da Violência 2026 (Ipea/FBSP) e o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 (FBSP).Ilustração: Mentiras da Família Bolsonaro · Arte própria com dados públicos

Resumo dos fatos

É verdade

  • A taxa nacional de homicídios caiu durante o governo Bolsonaro: de 28,2 para 22,1 por 100 mil habitantes entre 2018 e 2022, segundo o Atlas da Violência 2026.

Não é verdade

  • A queda não foi de 40%. Entre 2018 e 2022, foi de 21,6% nos registros do Ministério da Saúde (Atlas da Violência) e de 18,6% nas mortes violentas intencionais (Anuário Brasileiro de Segurança Pública). Mesmo partindo do pico de 2017, fica entre 27% e 31%.

Falta contexto

  • A queda começou em 2018, ainda no governo Michel Temer, e se concentrou em 2019. De 2019 a 2022, a taxa ficou praticamente estável: +0,5% no Atlas e −1,3% no Anuário.
  • Em 2019, as mortes violentas sem causa definida subiram 35%. Contando os homicídios estimados nessa categoria, a queda da taxa entre 2018 e 2022 fica em 18,9%.
  • As polícias civis e militares são subordinadas aos governadores. O Atlas atribui a queda a mudanças demográficas, à dinâmica do crime organizado e à gestão de segurança em estados e municípios.

O que está sendo afirmado

Uma lista com 42 supostas realizações do governo Jair Bolsonaro (2019–2022) passou a circular nas redes em outubro de 2026. O item 42 diz: “Reduziu 40% da taxa de homicídios no Brasil”. Segundo a Agência Lupa, o influenciador Pablo Marçal publicou a lista no Instagram em 7 de outubro, e o perfil do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) curtiu a publicação.

Não encontramos registro de integrante da família Bolsonaro citando o número de 40%. Jair Bolsonaro já disse, sem apresentar percentual, que “todos os índices de homicídios” caíram em seu governo, em publicação de dezembro de 2021 registrada pelo Poder360. Em fevereiro de 2023, afirmou que o número de homicídios teve em seu governo a “maior redução frente série histórica”, segundo O Antagonista.

O que dizem os dados

Há duas fontes nacionais de referência. O Atlas da Violência 2026, do Ipea e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), usa os registros de óbitos do Ministério da Saúde. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, do FBSP, reúne dados das polícias estaduais e mede as mortes violentas intencionais (MVI): homicídios dolosos, latrocínios, lesões corporais seguidas de morte e mortes por intervenção policial.

A taxa indica quantas mortes houve para cada 100 mil habitantes. Ela permite comparar anos com populações diferentes, o que a contagem absoluta não faz.

Ano Taxa de homicídios (Atlas) Taxa de MVI (Anuário)
2017 32,1 31,2
2018 28,2 27,9
2019 22,0 23,0
2020 23,9 24,1
2021 22,8 23,0
2022 22,1 22,7

Comparando 2018, último ano antes da posse, com 2022, último ano do mandato, a taxa caiu 21,6% no Atlas (de 28,2 para 22,1) e 18,6% no Anuário (de 27,9 para 22,7). Para chegar a 40%, a taxa de 2022 teria de estar perto de 17 por 100 mil, nível abaixo de todos os anos das tabelas consultadas. Nelas, a menor taxa do Atlas é de 20,1, em 2024, e a do Anuário, de 19,1, em 2025.

Mesmo escolhendo o ponto de partida mais favorável, o pico de 2017, dois anos antes da posse, a redução até 2022 fica em 31,2% no Atlas e em 27,2% no Anuário. Em números absolutos, os homicídios registrados caíram 19,9% entre 2018 e 2022, de 57.956 para 46.409. As MVI caíram 16,7%, de 57.592 para 47.963 — o mesmo cálculo que a Lupa fez ao classificar o item como falso.

Quando a queda aconteceu

Quase toda a redução ocorreu entre 2017 e 2019. O próprio Atlas afirma que a trajetória de redução da violência letal “começou em 2018”. Naquele ano, ainda no governo Michel Temer, a taxa caiu 12,1%. Em 2019, primeiro ano de Bolsonaro, caiu mais 22%. Depois, subiu em 2020 e terminou 2022 praticamente no mesmo patamar de 2019: variação de +0,5% no Atlas e de −1,3% no Anuário.

Ainda em 2019, o pesquisador Robert Muggah, do Instituto Igarapé, escreveu que a taxa vinha caindo de forma constante desde o início de 2018 e associou o recorde de 2017 ao rompimento de uma trégua entre as duas maiores facções do tráfico.

Há também uma ressalva sobre a qualidade dos dados. As mortes violentas por causa indeterminada, em que não se registra se houve homicídio, suicídio ou acidente, saltaram de 12.310 em 2018 para 16.648 em 2019, alta de 35%, segundo o Atlas. Quando o Ipea estima os homicídios escondidos nessa categoria, a queda da taxa entre 2018 e 2022 fica em 18,9%. O Anuário de 2025 aponta movimento parecido nos registros policiais: entre 2017 e 2019, a queda das MVI foi acompanhada de aumento das “mortes a esclarecer”.

Quem responde pela segurança pública

Pela Constituição, as polícias civis e militares, responsáveis pela investigação e pelo policiamento nas ruas, são subordinadas aos governadores. A União mantém as polícias Federal e Rodoviária Federal, mas não comanda as polícias que fazem o patrulhamento cotidiano e investigam a maior parte dos crimes.

O Atlas atribui a queda dos homicídios a mudanças demográficas, a alterações na dinâmica do crime organizado e ao aprimoramento da gestão de segurança em alguns territórios, “no plano subfederativo”, ou seja, em estados e municípios.

Cronologia

  • 2017 — O Brasil registra 65.602 homicídios e taxa de 32,1 por 100 mil, o pico do período analisado.
  • 2018 — A taxa cai para 28,2. Começa a trajetória de queda.
  • 1º de janeiro de 2019 — Jair Bolsonaro toma posse.
  • 2019 — A taxa cai para 22,0; as mortes violentas por causa indeterminada sobem 35%.
  • 2020 — A taxa sobe para 23,9.
  • 26 de dezembro de 2021 — Bolsonaro afirma no Twitter que todos os índices de homicídios caíram em seu governo.
  • 2022 — Último ano do mandato: taxa de 22,1 no Atlas e de 22,7 no Anuário.
  • 20 de fevereiro de 2023 — Bolsonaro diz que seu governo teve a maior redução de homicídios da série histórica.
  • 26 de maio de 2026 — Ipea e FBSP divulgam o Atlas da Violência 2026.
  • 7 de outubro de 2026 — Pablo Marçal publica a lista com a frase sobre os 40%.
  • 22 de outubro de 2026 — A Lupa classifica o item como falso.

Por que o veredito é FALSO

O número central da alegação não se sustenta. Nas duas séries nacionais de referência, a taxa de homicídios caiu entre 18,6% e 21,6% de 2018 a 2022, cerca de metade dos 40% divulgados. Nenhuma comparação dentro do mandato, com qualquer das bases, chega perto desse percentual. Só comparando o pico de 2017 com 2025, terceiro ano do governo Lula, a queda se aproxima de 39%, e ainda assim fora do período de Bolsonaro.

A frase também atribui ao ex-presidente uma queda que começou antes da posse, se concentrou em seu primeiro ano e estagnou depois. A segurança pública depende sobretudo das polícias estaduais.

Fontes (8)

Todas as fontes foram abertas e lidas pela redação. Links externos abrem o documento original.

  1. JornalismoAgência Lupa
    Lista viral de '42 realizações de Bolsonaro' inclui obras de outros governos e nome de rodovia que não existe (abre em nova aba)

    Publicado em · Acessado em

    • A frase “Reduziu 40% da taxa de homicídios no Brasil” é o item 42 de uma lista viral com 42 supostos feitos do governo Bolsonaro.
    • O influenciador Pablo Marçal publicou a lista no Instagram em 7 de outubro de 2026; o perfil de Flávio Bolsonaro curtiu a publicação.
    • A Lupa classificou o item como FALSO: o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 registra 57.592 mortes violentas intencionais em 2018 e 47.963 em 2022, queda de 16,7%.
  2. Fonte primáriaInstituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP)
    Atlas da Violência 2026 (abre em nova aba)

    Publicado em · Acessado em

    • Taxa de homicídios registrados no Brasil (SIM/Ministério da Saúde) por 100 mil habitantes: 32,1 (2017), 28,2 (2018), 22,0 (2019), 23,9 (2020), 22,8 (2021), 22,1 (2022), 21,7 (2023) e 20,1 (2024) (Tabela 2.1, p. 16).
    • Número de homicídios registrados: 65.602 (2017), 57.956 (2018), 45.503 (2019), 49.868 (2020), 47.847 (2021), 46.409 (2022) (Tabela 2.2, p. 17).
    • Taxa de homicídios estimados, incluindo homicídios ocultos: 33,8 (2017), 30,7 (2018), 25,5 (2019), 26,6 (2020), 25,3 (2021), 24,9 (2022) (Tabela 3.2, p. 23).
    • Mortes violentas por causa indeterminada passaram de 12.310 em 2018 para 16.648 em 2019 (Tabela 3.5, p. 26).
    • A trajetória de redução da violência letal no país começou em 2018 (p. 8).
    • O Atlas atribui a queda das taxas a mudanças demográficas, à dinâmica do crime organizado e ao aprimoramento da gestão de segurança em alguns territórios, no plano subfederativo (p. 13).
  3. PesquisaFórum Brasileiro de Segurança Pública
    Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 (abre em nova aba)

    Publicado em · Acessado em

    • Mortes violentas intencionais (MVI) no Brasil: 64.079 (2017), 57.592 (2018), 47.765 (2019), 50.448 (2020), 48.286 (2021), 47.963 (2022), 46.441 (2023), 44.220 (2024) e 40.775 (2025) (Tabela 02, p. 29).
    • Taxa de MVI por 100 mil habitantes: 31,2 (2017), 27,9 (2018), 23,0 (2019), 24,1 (2020), 23,0 (2021), 22,7 (2022), 21,9 (2023), 20,8 (2024) e 19,1 (2025) (Tabela 02, p. 30).
    • MVI somam vítimas de homicídio doloso, latrocínio, lesão corporal seguida de morte e mortes por intervenção policial, com base em registros das secretarias estaduais de segurança.
  4. PesquisaFórum Brasileiro de Segurança Pública
    Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 (abre em nova aba)

    Acessado em

    • A edição de 2025 registra 57.592 mortes violentas intencionais em 2018 e 47.963 em 2022 (Tabela 02, p. 24), mesmos valores da edição de 2026.
    • O FBSP observa que, entre 2017 e 2019, a queda das MVI foi acompanhada de aumento dos registros de “mortes a esclarecer” nas polícias (p. 429).
  5. Fonte primáriaPresidência da República (Planalto)
    Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 — art. 144 (Segurança Pública) (abre em nova aba)

    Publicado em · Acessado em

    • As polícias civis e militares são subordinadas aos governadores dos estados e do Distrito Federal.
    • Cabe às polícias militares o policiamento ostensivo e às polícias civis a investigação de infrações penais, ressalvada a competência da União.
  6. PesquisaInstituto Igarapé (artigo de Robert Muggah)
    What explains Brazil's homicide decline? (abre em nova aba)

    Publicado em · Acessado em

    • A taxa de homicídios vinha caindo de forma constante desde o início de 2018, antes da eleição de Bolsonaro.
    • O autor associa o pico de 2017 à ruptura de uma trégua entre as duas principais facções do tráfico e avalia que a queda tem pouca relação com ações do governo federal.
  7. JornalismoPoder360
    Bolsonaro fala que em seu governo índices de homicídios caíram (abre em nova aba)

    Publicado em · Acessado em

    • Em 26 de dezembro de 2021, Jair Bolsonaro escreveu no Twitter que todos os índices de homicídios, entre outros crimes, caíram desde que assumiu, sem citar percentual.
    • Segundo o 15º Anuário do FBSP citado pelo Poder360, as mortes violentas intencionais subiram 4% em 2020 em relação a 2019.
  8. JornalismoO Antagonista
    Bolsonaro exalta redução no número de homicídios e ignora tragédia paulistana (abre em nova aba)

    Publicado em · Acessado em

    • Em 20 de fevereiro de 2023, Jair Bolsonaro publicou no Twitter que o número de homicídios teve em seu governo a maior redução da série histórica, sem citar percentual.

Como checamos

Foram usadas as duas séries nacionais de referência: a taxa de homicídios registrados do Atlas da Violência 2026 (Ipea e FBSP), baseada no Sistema de Informações sobre Mortalidade do Ministério da Saúde (Tabelas 2.1, 2.2, 3.2 e 3.5), e a taxa de mortes violentas intencionais do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 (FBSP), baseada em registros das polícias estaduais (Tabela 02). O período do governo foi medido de 2018, último ano antes da posse, a 2022, último ano do mandato; também foram calculados 2019–2022 e 2017–2022. As variações foram calculadas sobre as taxas por 100 mil habitantes, com a fórmula (valor final − valor inicial) ÷ valor inicial. Os PDFs foram lidos na íntegra a partir dos endereços oficiais do FBSP.

Limitações

Atlas e Anuário medem fenômenos próximos, mas não idênticos (óbitos no sistema de saúde e boletins policiais), e revisam números entre edições; as taxas do Atlas 2026 usam a população da PNAD Contínua e podem diferir ligeiramente das de edições anteriores. Não foi possível abrir a publicação original de Pablo Marçal nem identificar de onde veio o número de 40%. As causas da queda dos homicídios são objeto de debate, e este texto não mede o efeito de políticas específicas.

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Histórico desta checagem

  1. Publicação

    Versão original publicada após revisão editorial.

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